terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Escolhas de Deus


    Sob a ação da fé, na ação divina, e baseados nas Palavras da Escritura Sagrada, podemos dizer que Deus faz escolhas entre as pessoas. Mas na preferência estão os pequeninos, os fracos, para confundir os poderosos da sociedade. As oito pessoas mais ricas do mundo, conforme o anunciado pela imprensa nestes dias, não conseguem entender essa forma própria do agir de Deus.
    A felicidade não está no ter e nem no poder, porque a vida de todos passa, também a (vida) das pessoas mais ricas e poderosas. Talvez a maior riqueza esteja em quem não tem nada, a não ser a vida. Quem não tem excesso de bens materiais, tem maior facilidade para construir uma fraternidade comunitária. Tem mais abertura para o encontro com as pessoas das mesmas condições. 
    É fundamental viver centrado em Deus. Ele é o poder e a riqueza, e não nos confunde. Através da apresentação das Bem-aventuranças (Mt 5,1-12), Jesus diz que quem as observa é bendito do Pai. Supõe desapego dos bens do mundo, que é um desafio, mas ajuda na partilha com os outros e o coração fica sem amarras. Onde há partilha, existe lugar para todos, porque há inclusão.
    Deus escolhe as pessoas sofridas de uma sociedade injusta e excludente. São os que não contam, são estranhos para a cultura do consumismo e não participam desse mercado. Elas apenas lutam pela sua sobrevivência e se tornam vítimas de preconceitos e discriminação. Deus sempre se põe ao lado dessa gente e valoriza o esforço e a coragem presentes em seus corações.
    Felizes as pessoas mansas e puras, porque são despidas de todo tipo de agressão, e estão alicerçadas na não violência. Significa que valorizam o outro na sua dignidade, e por isso não o ofende. Não se deixam corromper pelos deuses da atualidade: dinheiro, poder, consumo etc. Sabem que a vontade de Deus é a justiça praticada para todas as pessoas na construção dos objetivos do Reino do bem.
    Existem muitas falsas seguranças. Elas não proporcionam a verdadeira felicidade. E as escolhas feitas por Deus mostram que a fragilidade confunde o falso poder. A glória pertence ao Senhor, como diz o Apóstolo Paulo: “para quem se gloria, glorie-se no Senhor” (ICor 1,31). A glória do Senhor é a cruz, o amor. Só quem ama de verdade, amando o irmão, é capaz de participar da glória de Deus.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba (MG)

Fonte:http://noticiascatolicas.com.br/escolhas-de-deus.html

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A Misericórdia que continua


     No dia 21 de novembro do ano passado, ao concluir o Ano Santo da Misericórdia, o Papa Francisco entregou à Igreja o documento “misericórdia e miséria” (misericordia et misera), no intuito de continuar o clima desencadeado por esse tempo abençoado que a Igreja viveu com as peregrinações e celebrações do jubileu extraordinário. E dando sinais de acolhida à Fraternidade Sacerdotal São Pio X concedeu a faculdade dada a toda a Igreja também aos sacerdotes dessa fraternidade.
     O Papa, já ao proclamar, com entusiasmo, o Jubileu Extraordinário da Misericórdia, não quis resolver os problemas práticos que cercam a volta plena da FSSPX à Igreja, mas desejou demonstrar-lhes benevolente misericórdia e generosa acolhida ao conceder, na Carta sobre o Ano Jubilar, de 1º de setembro de 2015, como Supremo Pastor da Igreja, que os sacerdotes da Fraternidade absolvessem de modo válido e lícito os fiéis que a eles recorressem.
São palavras do Papa: “Uma última consideração é dirigida aos fiéis que por diversos motivos sentem o desejo de frequentar as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Este Ano Jubilar da Misericórdia não exclui ninguém. De diversas partes, alguns irmãos Bispos referiram-me acerca da sua boa fé e prática sacramental, porém unida à dificuldade de viver uma condição pastoralmente árdua. Confio que no futuro próximo se possam encontrar soluções para recuperar a plena comunhão com os sacerdotes e os superiores da Fraternidade. Entretanto, movido pela exigência de corresponder ao bem destes fiéis, estabeleço por minha própria vontade que quantos, durante o Ano Santo da Misericórdia, se aproximarem para celebrar o Sacramento da Reconciliação junto dos sacerdotes da Fraternidade São Pio X recebam validamente e licitamente a absolvição dos seus pecados”.
    Agora, passado o Ano Jubilar Extraordinário da Misericórdia, como dissemos acima, o Papa voltou a dar sinais de acolhida para com a FSSPX ao escrever: “No Ano do Jubileu, aos fiéis que por variados motivos frequentam as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X, tinha-lhes concedido receber válida e licitamente a absolvição sacramental dos seus pecados. Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica, estabeleço por minha própria decisão de estender esta faculdade para além do período jubilar, até novas disposições sobre o assunto, a fim de que a ninguém falte jamais o sinal sacramental da reconciliação através do perdão da Igreja”. (Misericordia et misera, n. 12).
    Assim, o Papa Francisco, fiel à sua proposta de estender a todos os que desejam de braços e coração abertos acolher a misericórdia de Deus em suas vidas, não deixou de olhar com um carinho especial para a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). Esse é um sinal que demonstra uma abertura importante, pois essa Fraternidade mantém reservas teológicas para com a Igreja de Roma no que toca, especialmente, a pontos de grande parte dos documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965). Ela, segundo informações, não seria “sedevacantistas”, pois em suas Missas, o nome do Papa Francisco e do Bispo local são mencionados na parte correspondente da Santa Missa.
     A questão da Fraternidade se foca em pontos do Concílio Vaticano II e daí, apesar dos diálogos abertos com a Santa Sé, continuam afirmando que o Concílio Vaticano II foi de índole pastoral e, por isso, não tocou em verdades do Depositum Fidei da Igreja.
     Por essa atitude, no mínimo estranha, brevemente descrita, a Santa Sé declarou a Fraternidade Sacerdotal S. Pio X cismática – afastada de Roma sem renegar verdades de fé, pois se negasse seria herética – em 1996, de acordo com o boletim SNOP, da Conferência dos Bispos Franceses, n. 1813, de 04/07/1997, p. 23. Essa classificação de cismática parece não ter sido ainda revertida, apesar dos diálogos entre a Santa Sé e a Fraternidade, uma vez que o Santo Padre espera “boa vontade dos sacerdotes da Fraternidade para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica”. (Misericordia et misera, n. 12).
    Aprofundando um pouco mais, devemos dizer que a tentativa de retorno dos membros da Fraternidade começou com o Papa Bento XVI. Rodrigo Coppe Caldeira, articulista do jornal O Lutador de 11-20/04/09, p. 03, deixou claro que a intenção já do Papa Bento XVI era fazer um trabalho conjunto entre a Pontifícia Comissão Ecclesia Dei e a Congregação para a Doutrina da Fé, a fim de juntas chegarem, no diálogo com a FSSPX, à plena comunhão desta com Roma. Sobre o que versaria, especificamente, esse diálogo? – A respeito da aceitação do Concílio Vaticano II e do magistério pós-conciliar dos papas.
     A propósito disso, o próprio Bento XVI tinha alertado: “Não se pode congelar a autoridade magisterial da Igreja no ano de 1962: isto deve ser bem claro para a Fraternidade”. Isto é, defender que as decisões do magistério eclesiástico são legítimas somente até Pio XII, o último Papa antes do Concílio Vaticano II, não é correto e não pode ser aceito.
     Cabe, por fim, uma palavra sobre a diferença entre um sacerdote ministrar o sacramento, do ponto de vista canônico, de modo válido e lícito: é válido quando os referidos sacerdotes foram ordenados por um Bispo que conserva a sucessão apostólica. Daí vem aos sacerdotes a capacidade de exercerem de modo válido o ministério. Contudo, é ilícito ou pecaminoso se – sem licença especial da autoridade eclesiástica competente – estão em comunhão imperfeita com a Igreja ou em cisma – continuam a exercer o ministério.
    No caso dos padres da FSSPX, o Papa Francisco concede, uma vez mais, e agora por tempo indeterminado até segunda decisão, que eles deem de modo válido e lícito a absolvição sacramental aos fiéis que os procuram. O Papa, ao proclamar a continuação do clima da misericórdia, dá sinais claros da importância da aproximação e do diálogo na busca da cultura do encontro. É tempo de misericórdia!
Por Orani João, Cardeal Tempesta Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro
Fonte:http://noticiascatolicas.com.br/a-misericordia-que-continua.html

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Por um Ano Novo






    Os descompassos da vida cotidiana de cada cidadão fazem aflorar no coração o desejo, a prece e o sonho de um ano verdadeiramente novo. Uma novidade que não se refere ao início da inevitável contagem dos próximos 365 dias. São esperadas, principalmente, novas atitudes, amadurecimento da cidadania e a competência para reinventar projetos, programas e ações que tirem a sociedade brasileira de sua preocupante situação. Para isso, as instituições sociais, em todos os seus segmentos, devem se tornar capazes de oferecer novas respostas, o que inclui aproveitar, de modo mais inteligente e humanitário, as riquezas do Brasil e as potencialidades do povo brasileiro.

    A primeira e mais determinante ação para se efetivar o desejo de um ano realmente novo é voltar-se para o próprio coração. Nele deve ocorrer a intervenção mais revolucionária, configurando-o como “coração da paz”. Se você, o outro, todos, mundo afora, se tornarem “coração da paz”, a humanidade terá um tecido cultural capaz de regrar funcionamentos, reger consciências e fazer despertar o mais fecundo sentido de cidadania. Tudo seria balizado pelo princípio incondicional do respeito à vida de cada pessoa, em uma luta cotidiana para combater o que ameaça esse dom inviolável. “Coração da paz” é quem se compromete, dentro das próprias responsabilidades e no dia a dia, a amparar as muitas vítimas de conflitos armados, dos terrorismos, das mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto e pelas discriminações.
    O sábio princípio de que todos são irmãos precisa ser reconhecido e vivido. Pois o amor rege a relação entre irmãos, fazendo-os partilhar tudo o que proporciona o bem. Assim, esse princípio é determinante no ajuste moral que cada um dos integrantes da sociedade precisa. Desconsiderá-lo inviabiliza a tarefa de encontrar saídas para os muitos problemas. E as consequências são as prisões cada vez mais cheias, os entraves para o crescimento e o desenvolvimento, os conflitos entre os poderes, a expansão da pobreza e a continuidade dos privilégios que revoltam. Por tudo isso, no horizonte, há de se desenhar a silhueta da grande família humana. Não somente a família biológica, ou a que reúne pessoas conhecidas. A convocação é para que, diariamente, cada pessoa amplie as medidas do próprio coração para nele acolher princípios morais que motivam o respeito ao bem comum e o compromisso com os mais pobres.
    Diante dessa necessidade de fazer com que cada pessoa torne-se coração da paz, é preciso dedicar atenção especial à família, enquanto comunhão íntima de vida e amor fundada sobre o matrimônio entre um homem e uma mulher. Trata-se do lugar primário da humanização. Por isso, urgente e indispensável é investir na constituição da vida familiar, sem fantasias, conscientes dos desafios culturais que existem, das mudanças que atropelam e confundem. A família é fonte da experiência da paz e do amor entre irmãos e irmãs, ambiente para a aprendizagem insubstituível da função da autoridade, manifestada pelos pais. É também lugar para se exercer a dedicação aos mais fracos e pobres, doentes e idosos, onde se cultiva o gosto pela ajuda mútua e se exercita a inigualável virtude de sempre perdoar. Há um léxico da paz que só a escola da família tem propriedade para ensinar, exercitar e selar, como a impressão de uma indelével marca.
    Cuidar da família é fundamental para se proteger a verdade, tão ameaçada no mundo contemporâneo. E as consequências desse comprometimento se manifestam nos muitos descompassos sociais. Quando não se é transparente no que se faz, os impactos negativos incidem na rede de relações entre pessoas, no dia a dia, incluindo a prática de “mentirinhas” até os absurdos esquemas de corrupção. Deixar-se iluminar pelo esplendor da verdade é fundamental para que ela, com a sua força libertadora sem igual, construa o caminho novo, o novo ano que se quer.
     A mentira, seja qual for, é a manifestação do fracasso. Ela não é alicerce capaz de sustentar os cidadãos e os projetos exitosos. Já a verdade, com sua força de transparência, gera a prosperidade, a alegria que não morre. Dela brota o novo que se sonha alcançar. Para que cada pessoa aproxime-se da verdade e, consequentemente, ajude a construir o novo almejado no ano que se inicia é oportuno acolher o convite e os votos do Papa Francisco, apresentados em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz: “No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos responsáveis pelas Comunidades Religiosas e pelas várias expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta dignidade mais profunda e façamos da não-violência o nosso estilo de vida.” No compromisso de acolher o convite e os votos do Papa Francisco, cada pessoa reconheça que muitos são os caminhos, mas tudo depende de cada um para que se alcance o “novo” esperado neste ano de 2017.

Por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo Belo Horizonte (MG)
Fonte: http://noticiascatolicas.com.br/por-um-ano-novo.html