Os descompassos da vida cotidiana de cada cidadão fazem aflorar no
coração o desejo, a prece e o sonho de um ano verdadeiramente novo. Uma
novidade que não se refere ao início da inevitável contagem dos próximos
365 dias. São esperadas, principalmente, novas atitudes, amadurecimento
da cidadania e a competência para reinventar projetos, programas e
ações que tirem a sociedade brasileira de sua preocupante situação. Para
isso, as instituições sociais, em todos os seus segmentos, devem se
tornar capazes de oferecer novas respostas, o que inclui aproveitar, de
modo mais inteligente e humanitário, as riquezas do Brasil e as
potencialidades do povo brasileiro.
A primeira e mais determinante ação para se efetivar o desejo de um
ano realmente novo é voltar-se para o próprio coração. Nele deve ocorrer
a intervenção mais revolucionária, configurando-o como “coração da
paz”. Se você, o outro, todos, mundo afora, se tornarem “coração da
paz”, a humanidade terá um tecido cultural capaz de regrar
funcionamentos, reger consciências e fazer despertar o mais fecundo
sentido de cidadania. Tudo seria balizado pelo princípio incondicional
do respeito à vida de cada pessoa, em uma luta cotidiana para combater o
que ameaça esse dom inviolável. “Coração da paz” é quem se compromete,
dentro das próprias responsabilidades e no dia a dia, a amparar as
muitas vítimas de conflitos armados, dos terrorismos, das mortes
silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto e pelas discriminações.
O sábio princípio de que todos são irmãos precisa ser reconhecido e
vivido. Pois o amor rege a relação entre irmãos, fazendo-os partilhar
tudo o que proporciona o bem. Assim, esse princípio é determinante no
ajuste moral que cada um dos integrantes da sociedade precisa.
Desconsiderá-lo inviabiliza a tarefa de encontrar saídas para os muitos
problemas. E as consequências são as prisões cada vez mais cheias, os
entraves para o crescimento e o desenvolvimento, os conflitos entre os
poderes, a expansão da pobreza e a continuidade dos privilégios que
revoltam. Por tudo isso, no horizonte, há de se desenhar a silhueta da
grande família humana. Não somente a família biológica, ou a que reúne
pessoas conhecidas. A convocação é para que, diariamente, cada pessoa
amplie as medidas do próprio coração para nele acolher princípios morais
que motivam o respeito ao bem comum e o compromisso com os mais pobres.
Diante dessa necessidade de fazer com que cada pessoa torne-se
coração da paz, é preciso dedicar atenção especial à família, enquanto
comunhão íntima de vida e amor fundada sobre o matrimônio entre um homem
e uma mulher. Trata-se do lugar primário da humanização. Por isso,
urgente e indispensável é investir na constituição da vida familiar, sem
fantasias, conscientes dos desafios culturais que existem, das mudanças
que atropelam e confundem. A família é fonte da experiência da paz e do
amor entre irmãos e irmãs, ambiente para a aprendizagem insubstituível
da função da autoridade, manifestada pelos pais. É também lugar para se
exercer a dedicação aos mais fracos e pobres, doentes e idosos, onde se
cultiva o gosto pela ajuda mútua e se exercita a inigualável virtude de
sempre perdoar. Há um léxico da paz que só a escola da família tem
propriedade para ensinar, exercitar e selar, como a impressão de uma
indelével marca.
Cuidar da família é fundamental para se proteger a verdade, tão
ameaçada no mundo contemporâneo. E as consequências desse
comprometimento se manifestam nos muitos descompassos sociais. Quando
não se é transparente no que se faz, os impactos negativos incidem na
rede de relações entre pessoas, no dia a dia, incluindo a prática de
“mentirinhas” até os absurdos esquemas de corrupção. Deixar-se iluminar
pelo esplendor da verdade é fundamental para que ela, com a sua força
libertadora sem igual, construa o caminho novo, o novo ano que se quer.
A mentira, seja qual for, é a manifestação do fracasso. Ela não é
alicerce capaz de sustentar os cidadãos e os projetos exitosos. Já a
verdade, com sua força de transparência, gera a prosperidade, a alegria
que não morre. Dela brota o novo que se sonha alcançar. Para que cada
pessoa aproxime-se da verdade e, consequentemente, ajude a construir o
novo almejado no ano que se inicia é oportuno acolher o convite e os
votos do Papa Francisco, apresentados em sua mensagem para o Dia Mundial
da Paz: “No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos
povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem
como aos responsáveis pelas Comunidades Religiosas e pelas várias
expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino
e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa
nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma
dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta
dignidade mais profunda e façamos da não-violência o nosso estilo de
vida.” No compromisso de acolher o convite e os votos do Papa Francisco,
cada pessoa reconheça que muitos são os caminhos, mas tudo depende de
cada um para que se alcance o “novo” esperado neste ano de 2017.
Por Dom Walmor Oliveira de Azevedo, Arcebispo Belo Horizonte (MG)
Fonte: http://noticiascatolicas.com.br/por-um-ano-novo.html

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