O Evangelho do XIII Domingo (Lc 9, 51-62) diz que Jesus tomou
resolutamente o caminho para Jerusalém. Este caminho, ou esta viagem, é
modelar. Simboliza a resposta de Jesus ao plano do Pai. Ele não vacila.
Vai ao encontro do Pai, segue rumo a Jerusalém, onde se consumará a sua
missão. Quem quiser ser discípulo de Jesus, deve pôr-se a caminho com
Ele. Ser discípulo de Cristo não consiste em conhecer a sua doutrina! É
segui-Lo, é aderir inteiramente a Ele. É fazer o mesmo caminho que
Cristo percorreu.
Enquanto percorria o caminho Jesus encontra três candidatos a
discípulo, que representam os inumeráveis candidatos, que desejarão
segui-lo ao longo dos séculos e Jesus opõe-lhes as condições do Seu
seguimento. “Seguir-Te-ei para onde quer que fores” (Lc 9, 57), diz o
primeiro; e o Senhor respondeu-lhe: “As raposas têm tocas e a aves do
céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça” (Lc
9, 58). Aquele que deseja seguir a Cristo, não pode ter pretensões de
segurança ou vantagens terrenas.
Ao segundo, Jesus dirige-lhe um convite decisivo, como que uma ordem:
“Segue-Me” (Lc 9, 59) e a este, tal como ao terceiro, que pede um
adiamento por questões familiares, Jesus não hesita em declarar que é
preciso segui-Lo sem adiar a Sua chamada. Há casos em que um adiamento,
ou mesmo o pensar demasiadamente no assunto, poderiam comprometer tudo.
“Quem põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de
Deus” (Lc 9, 62). O Cardeal Roncalli, falando aos padres, dizia:
“Deixamos a nossa terra e a nossa família, sem perder o amor à terra e à
família, mas elevando este amor a um significado mais alto e mais
vasto… Ai de nós, se continuamos a pensar numa casa cômoda…, num teor de
vida que nos procure glória, honras ou satisfações mundanas!”.
Jesus durante toda a sua vida caminhou para o Pai, teve no Pai sua
única meta, pelo Pai e o seu Reino, fez loucuras. Por isso, já no
capítulo nove do seu evangelho, São Lucas no-lo apresenta subindo para
Jerusalém, para sua partida para o Pai: “Quando chegou o tempo de Jesus
ser levado para o céu, então tomou a firme decisão de partir para
Jerusalém”. Ao pé da letra, São Lucas diz: ele voltou decididamente o
rosto para Jerusalém… Este é o caminho de Cristo: ir subindo até a
Cidade Santa, e de Jerusalém, para o Pai, atravessando o mistério da
paixão, da cruz e da morte, para chegar à ressurreição. Ele vai à
frente, no caminho, o seu caminho, e nos desafia a segui-Lo. Quem quiser
ser seu discípulo, deve segui-Lo neste caminho! Basta recordar o
domingo passado: deixar tudo… renunciar-se… tomar a cruz de cada dia… e
segui-Lo. Hoje, no caminho, ele nos previne: “As raposas têm tocas e as
aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a
cabeça”. E exige que coloquemos tudo abaixo dele, até pai e mãe… É assim
que Jesus quer seus discípulos: totalmente comprometidos com ele,
absolutamente! E afirma claramente: “Quem põe a mão no arado e olha para
trás, não está pronto para o Reino de Deus”.
Santo Atanásio diz: “Olhar para trás significa ter pesares e voltar a
experimentar o gosto das coisas do mundo”. É a tibieza, que se introduz
no coração dos que não têm os olhos postos no Senhor; é não ter o
coração transbordante de Deus e das coisas nobres da vocação. Nós
queremos ter olhos para olhar unicamente para Cristo e para todas as
coisas nobres n’Ele. Por isso podemos dizer com o Salmista: “O Senhor é a
porção da minha herança. Ensinar-me-ás o caminho da vida, cheio de
alegrias em tua presença e delícias à tua direita, perpetuamente” (Sl
15, 11). O caminho da vida é a nossa vocação, que temos de olhar com
amor e agradecimento.
Jesus é tão claro! Ele exige tanto de nós porque somente ele nos pode
dar tudo: o sentido da vida, o amor de Deus, a paz verdadeira e perene e
a vitória sobre a morte. Ele nos revela e nos dá um Deus que é todo
amor, todo carinho, todo perdão, todo piedade, um Deus que é o rochedo
de nossa existência. Mas, também, um Deus exigentíssimo! Não se pode ser
cristão pela metade! São Paulo, na segunda leitura deste domingo (Gl
5,1.13-18), exprime muito bem esta realidade: Cristo nos libertou para a
liberdade de uma vida nova, vida na graça de Deus, vida impulsionada
pelo Espírito do Ressuscitado. É esta a liberdade do discípulo de Jesus;
uma liberdade diversa do conceito de liberdade que o mundo apregoa. O
cristão é livre não porque faz o que quer; é livre porque quer somente a
vontade de Deus manifestada em Cristo Jesus: “Foi para a liberdade que
Cristo nos libertou!”(Gl 5,1) E, aí, o Apóstolo nos previne: “Não façais
dessa liberdade um pretexto para servirdes à carne”(Gl 5,13). “Carne” é
tudo quanto pertence ao homem velho, tudo quanto manifesta o velho
egoísmo de uma vida centrada em si mesmo e não em Deus, que se dá no
Cristo Jesus! “Carne” é tudo aquilo que é lógica deste mundo e não
lógica do Evangelho! Pode ser a lógica da ganância, da sensualidade e da
imoralidade, da religião interesseira à procura de milagres, curas e
benefícios materiais… tudo isso é carne: a descrença, a impiedade, a
vulgaridade e o comodismo no modo de viver.
Por Cardeal Orani João Tempesta – Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro (RJ)
Fonte:http://noticiascatolicas.com.br/seguir-jesus.html